Constelação e Campo Morfogenético (Efraim R. Bocallandro e Irene Cardotti Bocalandro)

12. 05. 29
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Inicialmente, vamos fazer uma descrição do processo de constelação.
 
Bert Helinger, psicoterapeuta alemão, nascido em 1925, em Leimen, foi antinazista na juventude, mas foi obrigado a fazer parte do serviço militar alemão. Ordenou-se sacerdote católico, mas desistiu dos votos depois de estudar a psicologia da Gestalt e tornar-se psicoterapeuta. Descobriu que a consciência não é juiz para determinar o certo e o errado, mas sim, ligadas a ordens pré- definidas, batizadas de "ordens do amor" e "ordens de origem". Criou uma dinâmica psicoterapêutica denominada de constelações familiares, que, mais tarde, ampliou sua abrangência, no chamado "movimentos da alma". Sua abordagem busca a clareza sobre os laços de amor que unem a família, descortinando soluções inusitadas e simples para os problemas e conflitos psíquicos dos pacientes.
 
A constelação familiar constitui uma original maneira de levar a consciência a um nível maior de abrangência nos diferentes campos da vida. O primeiro requisito da constelação é que a pessoa a ser constelada consiga verbalizar um problema pessoal, querer examinar, e se possível superar. Feito isso, vai escolher uma pessoa que o represente, depois vai escolher uma ou várias pessoas para representar os indivíduos que fazem parte do problema focado. A seguir, vai colocar separadamente cada representante em um lugar do espaço em que se realiza a constelação, de acordo com seus sentimentos.
 
Nesse momento, temos um conjunto de pessoas com espaços diferentes entre si e que pelo fato de que cada um constitui um vórtice de energia, podemos comparar esse sistema com uma constelação sideral. No caso da constelação familiar, o grupo de pessoas que a integra forma um sistema devido à interação entre cada pessoa e o resto do grupo, e entre o resto do grupo e cada pessoa. Dentro de um sistema, cada parte influencia o todo e o todo influencia cada parte. Essa vinculação é a característica do sistema.
 
O conceito de sistema se aplica perfeitamente no campo macro-cósmico. A conceituação de uma explosão inicial que originou o Universo de hoje, no qual tudo que existe está entrelaçado em um relacionamento sistêmico. Segundo os cosmólogos atuais, a expansão do Universo poderá continuar indefinidamente se a densidade das massas forem baixas. Mas, se a energia gravitacional for de um nível intenso, a expansão parará até chegar num "big crunch", que será o início da terrível concentração de massa que termina com um novo Big Bang. Nas constelações siderais, cada estrela é um vórtice de energia que faz parte de um sistema energético, que abrange todas as estrelas da constelação sideral.
 
Voltando à constelação familiar, a pessoa que coordena o processo solicita que cada um se deixe levar pelos seus sentimentos e faça aquilo que achar adequado. Depois desse momento, cada um dos representantes pode expressar sentimentos, às vezes de muita intensidade e que sabe estar relacionados com o problema que está sendo focalizado. Muitas vezes, os representantes falam ou tomam expressões emocionais que eles sabem que não são deles mesmos. Muitas vezes surgem falas que são de pessoas já falecidas. 
 
Tendo assistido por várias vezes a processos de constelação, eu me perguntei como pode acontecer que num processo aqui e agora participem pessoas já falecidas. A resposta que surgiu é que, no processo de constelação entram energias virtuais (por serem muito sutis) que determinam os efeitos e emoções e falas alheias ao representante. Essas energias virtuais são consideradas por Rupert Sheldrake como Campos Morfogenéticos.
 
Eu posso dizer que Campo Morfogenético, na biologia, é constituído por uma energia que age para dar forma a um ser vivo dentro de um processo de evolução, num espaço de tempo determinado. Pondo o conceito nas palavras de Sheldrake, "Os campos morfogenéticos são 'estruturas de probabilidade', nas quais as influências dos tipos passados mais comuns se combinam para aumentar a probabilidade de repetição destes tipos" 
Mais à frente, no seu livro "A Presença do Passado", Sheldrake afirma que "Os campos morfogenéticos de qualquer organismo vivo particular, digamos, de um girassol, são moldados pelas influências das gerações precedentes de girassóis. A ressonância mórfica não permite, contudo, explicar como é que aparecem os primeiros campos deste tipo.
Dentro do âmbito da evolução biológica, os campos de girassóis estão ligados, de maneira estreita, aos campos de outras espécies aparentadas, tais como as alcachofras de Jerusalém descendem, sem dúvida, dos campos de uma longa linhagem de espécies ancestrais. Mas a hipótese da causalidade formativa não permite responder à questão de saber como é que os campos do gênero girassol, ou da família compositae, de que é membro, ou das primeiras células, surgiram. E uma questão de origem, de criatividade. "  
 
Outro conceito importante para Sheldrake é o da ressonância morfogenética. A ressonância em música é o melhor exemplo que eu conheço para verbalizar esse fenômeno. Quando temos um instrumento musical, por exemplo, um violão, e se pulsa uma corda afinada em uma determinada nota, outra corda do violão afinada na mesma nota vai entrar em vibração sem ser pulsada. De acordo com Sheldrake, a ressonância mórfica implica uma espécie de ação à distância no espaço e no tempo. No campo morfogenético o passado influi no presente. Os ancestrais influem na geração atual por um efeito de ressonância. O ancestral influi na geração atual porque há semelhança entre as duas gerações. No caso de pessoas entre o ancestral e a geração atual podemos observar a repetição de comportamentos do ancestral do passado. Poderíamos dizer: a história se repete.
 
A afirmação de Rupert de que os ancestrais influenciam comportamentos semelhantes aos deles em outras gerações posteriores, é uma afirmação plausível que explica comportamentos de tataravós que aparecem em tataranetos, e isso pode ser presenciado em muitos processos de constelações.
"A ressonância mórfica dos padrões de atividade de organismos passados semelhantes e a auto-ressonância de um organismo podem ser percebidos como aspectos semelhantes do mesmo processo. Ambas implicam relações causais formativas através do espaço e do tempo. A auto- ressonância estabiliza, pela sua alta especificidade, o padrão de atividade característico de um organismo, ao passo que a semelhança com organismos passados semelhantes estabiliza a estrutura de probabilidade geral do campo."  
 
Para Sheldrake, a forma dos seres vivos é função dos campos morfogenéticos e da ressonância mórfica, mas ele não se limita ao aspecto físico dos seres vivos, ele também considera que os comportamentos também são função da ancestralidade. Nas palavras de Sheldrake:
"(...) A forma e o comportamento dos organismos não são, simplesmente, os produtos de interações mecânicas no seio do organismo, ou entre o organismo e o seu ambiente imediato; dependem, também, dos campos com os quais o organismo está sintonizado. " 
 
Além do conceito da biologia, da física, Sheldrake examina também conceitos psicológicos.
"A noção de hábito também foi explorada na biologia. Os organismos vivos parecem conter uma espécie de memória. O desenvolvimento dos embriões presentes não passa, de fato, de uma repetição do dos seus antepassados. Os animais possuem instintos que parecem encarnar experiências ancestrais. Todos os animais são, por outro lado, capazes de aprendizagem; desenvolvem hábitos que lhe são próprios. Samuel Butler demonstrou esta questão com uma clareza admirável, há cerca de cem anos. A memória, conclui, em Life and Habit, é a característica fundamental da vida: 'A vida é essa propriedade da matéria que lhe permite lembrar- se - a matéria capaz de se lembrar está viva. A matéria incapaz de se lembrar, está morta. '  Dois anos mais tarde, em Unconsious Memory , foi mais longe: 'não consigo imaginar uma matéria totalmente desprovida de memória, uma matéria que não esteja viva face ao que consegue recordar...não vejo como uma ação, seja ela qual for, seria concebível sem supor que cada átomo conserva a lembrança de determinados antecedentes'. Durante o desenvolvimento, os embriões passam por fases que lembram as formas embrionárias de tipos ancestrais distantes; o desenvolvimento de um organismo individual parece, de uma certa maneira, ligado ao conjunto do processo evolutivo que lhe deu origem. Os embriões humanos, por exemplo, passam por uma fase tipo peixe, com fendas branquiais. Butler via nisto uma manifestação da memória que o organismo tem da sua historia anterior. 'O pequeno óvulo, sem lembrança potencial de tudo o que aconteceu a cada um dos seus antepassados. " 
 
A afirmação, já clássica, que a ontogênese reproduz a filogênese têm sido demonstrada pela observação de embriões humanos em diferentes fases de evolução. Essa evolução, que parte de duas células e que evoluindo chega a ser um ser humano completo, é a confirmação da afirmação clássica. Sheldrake se interessou pelas leis físicas e pela sua imutabilidade; as leis são universais e imutáveis, mas também podemos encarar as leis como mutáveis porque pertencem a um Universo em evolução. Por um lado, a vida humana é muito curta, demais, em comparação a processos cósmicos; ou seja, 100 anos, que é a duração possível de um ser humano, não permitem perceber se houve uma mudança em um plano cósmico. 
Por um lado, a luz que chega a nós, do sol, nos mostra o sol oito minutos antes.
Quando se tratam de estrelas próximas, estamos vendo a estrela como era há um ano e quatro meses atrás. Quando pensamos em galáxias distantes, a luz que chega a nós destas galáxias demorou muitos milhões de anos para chegar.
A opção pela imutabilidade ou pela relatividade das leis é uma opção filosófica. Mas nem por isso Sheldrake deixou de examinar a contribuição dos antigos matemáticos e filósofos para entender melhor sobre as leis. Escolheu Pitágoras, pela suas enormes contribuições à matemática, à geometria e à música.
 
Pitágoras, "Tal como outros investigadores gregos, lançava os olhares para além do mundo em mudança da experiência cotidiana, em direção ao divino que, para eles, era concebido como o que não tinha começo, nem fim. Descobriram este princípio nos números. Os números eram divinos e constituíam os princípios imutáveis subjacentes ao mundo em mudança da experiência. Eram os símbolos da ordem, os indicadores de posição, os determinantes da extensão espacial, assim como - pelas suas relações e proporções - os princípios da lei natural. Conta-se que o próprio Pitágoras se encontra na origem da descoberta das leis numéricas da harmonia. As propriedades das cordas tensas são tais que a relação de comprimentos 1:2 dá a oitava; a relação 3:2, a quinta, e 4:3, a quarta." 9 Peso seis em relação ao peso doze dá a oitava. O peso nove em relação ao peso 12 dá a terça. E o peso 8 em relação ao peso 12 dá a quinta.
 
A Pitágoras se credita a fundamentação da escala diatónica (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si). Pitágoras, durante muito tempo, ponderou acerca das leis que governam a consonância e a dissonância. Diz a lenda que um dia, enquanto meditava sobre o problema da harmonia, Pitágoras passou em frente a uma oficina de ferreiro onde trabalhadores estavam martelando um pedaço de metal sobre uma bigorna. Ao notar as variações entre os sons feitos pelos martelos grandes e daqueles feitos por instrumentos menores e ao estimar cuidadosamente as harmonias e discordâncias resultantes das combinações desses sons, ele obteve a primeira chave para os intervalos musicais da escala diatónica. Ele entrou na oficina e depois de examinar com cuidado as ferramentas e estimar mentalmente seus pesos, ele regressou à sua casa e construiu um braço de madeira. Em intervalos regulares, ele anexou quatro cordas, todas do mesmo tamanho e composição. Na primeira, ele colocou um peso de doze libras. Na segunda, um de nove libras, na terceira, um de oito e na quarta, um de seis, que correspondiam aos pesos dos martelos. Pitágoras então descobriu as razões harmônicas correspondentes a esses pesos, revelando os intervalos da oitava, da quinta e da terça. 
 
Para Pitágoras, a música era uma das dependências da ciência divina da matemática e suas harmonias eram controladas inflexivelmente pelas proporções matemáticas. Tendo estabelecido a música como uma ciência exata, Pitágoras aplicou sua nova lei de intervalos harmônicos a todos os fenômenos naturais, mesmo indo tão longe quanto a demonstração da relação harmônica entre os planetas, constelações e elementos.
 
Um exemplo notável da confirmação moderna da filosofia antiga de ensinar é que a série dos elementos ordenados pelo peso atômico obedece a essa lei de razão harmônica. Enquanto fazia uma lista dos elementos em ordem ascendente de seus pesos atômicos, John A. Newlands descobriu que, a cada oito elementos, ocorre uma repetição distinta de propriedades. Essa descoberta é conhecida como a lei das oitavas na química moderna.
 
Uma vez que insistiam que a harmonia deve ser determinada não pelas percepções sensoriais, mas pela razão e pela matemática, os pitagóricos se autodenominavam Canónicos, como uma distinção dos músicos da Escola Harmônica, que afirmavam que o gosto e o instinto deveriam ser os verdadeiros princípios normativos da harmonia. 
 
Reconhecendo, entretanto, o profundo efeito da música sobre os sentidos e as emoções, Pitágoras não hesitou em estudar a influência da música sobre o corpo e a mente com o que ele chamou de "medicina musical".
Pitágoras tinha tamanha preferência pelos instrumentos de corda que chegou a alertar seus discípulos para que não permitissem que seus ouvidos fossem corrompidos pelos sons das flautas ou dos cimbais. Ele ainda declarou que a alma poderia ser purificada das suas influências irracionais através de canções solenes cantadas com acompanhamento da lira. 
Em sua investigação do valor terapêutico dos harmônicos, Pitágoras descobriu que os sete modos - ou chaves - do sistema musical grego tinham o poder de incitar ou apaziguar as várias emoções. Conta-se que enquanto observava as estrelas, numa noite, ele encontrou um jovem entorpecido por alguma bebida forte e, tomado pelo ciúme, estava empilhando lenha na porta de sua noiva, com a intenção de provocar um incêndio na casa. O frenesi do jovem estava sendo atiçado por um flautista não muito distante dali, que estava tocando um tom no irritante modo Frígio (Phrygian). Pitágoras induziu o músico a mudar o sopro para o lento modo rítmico Espondíaco (Spondaic), o que fez com que o jovem intoxicado se recompusesse imediatamente e, recolhendo as toras de madeira, retornou silenciosamente para seu próprio lar. 
 
Há também o caso de como Empédocles, um discípulo de Pitágoras, por mudar rapidamente o modo de uma composição musical que estava tocando para outra, salvou a vida de seu hóspede, Anchitus, quando este foi mortalmente ferido pela espada de um homem cujo pai ele havia condenado à execução pública. Também é sabido que Esculapius, o famoso médico grego, curou ciática e outras doenças nevrálgicas tocando um trompete na presença do paciente.
Pitágoras curou muitos males do espírito, alma e corpo por tocar determinadas músicas especialmente preparadas na presença do doente ou por recitar pequenas seleções de poesias da autoria de mestres como Hesíodo e Homero. Na sua universidade em Cróton, era de costume para os pitagóricos abrirem e fecharem cada dia com canções, sendo que as reservadas para a manhã eram calculadas para clarear a mente do sono e inspirar as atividades do dia que começava; e as do final da tarde para conduzir ao descanso, através de um modo suave e relaxante. No equinócio vernal, Pitágoras fazia seus discípulos sentarem-se em círculo, ao redor de um deles que cantasse tocando lira como acompanhamento.
 
A música terapêutica de Pitágoras é descrita por Iamblicus da seguinte forma:
"E havia certas melodias (devidas) como remédio contra as paixões da alma e também contra as lamentações e melancolias, que Pitágoras inventou como coisas que serviam de enorme assistência para esses males. E novamente ele empregou outras melodias contra a fúria e a raiva, e contra todas as aberrações da alma. Havia também outro, de modulação inventada, como um remédio contra os desejos " 
 
Devemos salientar a genialidade de Pitágoras, que há vinte e seis séculos no passado conseguiu estabelecer de forma muito clara a relação entre música e saúde, saúde física e psicológica. Foi necessário um intervalo de vinte e cinco séculos para que a medicina musical de Pitágoras se transformasse em musicoterapia.
 
As hipóteses de Rupert Sheldrake que pudemos apresentar neste artigo constituem uma lição avançada que produz uma reviravolta nas posições dos cientistas da biologia, da psicologia e da física. São hipóteses altamente criativas e que seduzem pela possibilidade de explicar, cientificamente, fenômenos que até agora se configuravam como parapsicologia.
 
Terminada a exposição dos aspectos mais importantes das postulações de Rupert Sheldrake, podemos afirmar que o Campo Morfogenético se constitui na mais recente postulação psicossomática que eu conheço. Quando Sheldrake afirma que a energia do Campo Morfogenético age de ancestrais até os mais novos representantes de uma família biológica e que pela ressonância morfonegética, essa energia reforça as modificações físicas e psicológicas dos seres humanos, podemos entender o que acontece com crianças de dois, três, quatro anos, que demonstram uma habilidade verbal e motora muito mais diferenciada do que os pais quando tinham essa idade.
 A facilidade com que nossas crianças, de hoje, dominam brinquedos eletrônicos e até computadores e a utilização de uma linguagem muito diferenciada, no que se refere a domínio dos significados das palavras e dos sentidos de frases. 
Essa facilidade pode ser atribuída à existência do campo morfogenético e à respectiva ressonância.
 
É conhecida a imagem da Gestalt constituída por um vaso e dois perfis. Vamos supor que os perfis fossem psquismo e o vaso seja o corpo, o soma, há pessoas que vêem só os perfis e outras que vêem só o vaso. Levando a analogia para o campo morfogenético, ele agiria simultaneamente sobre o vaso e os perfis e se alguém pudesse enxergar a figura dessa maneira, veria, de forma psicossomática, o ser humano, ou seja, psique e corpo, uma unidade indissociável.
 
*Especialista e Doutor em Psicologia Clínica e Professor Titular da PUC-SP.
 
Referências Bibliográficas:
¦ Sheldrake, Rupert. "A Ressonância Mórfíca e a Presença do Passado - Os hábitos da Natureza". São Paulo, Crença e Razão, 1988.
¦ Boccalandro, Efraim Rojas. "Teste Projetivo Sonoro Infantil". (No prelo).
¦ Hall, Manly P. "The Secret Teachings of All Ages: An Encyclopedic Outline of Masonic, Hermetic, Qabbalistic and Rosicrucian Symbolical Philosophy" Chapter LXXXI: The Pythagorean Theory of Music and Color. Los Angeles, The Philosofical Research Society, 1975. 
6 Butler, Samuel aput Sheldrake, Hupert. Pg.37.