O TDAH existe? Reflexõs de Maturana...( Marilyn Wedge, Ph.D.)

13. 11. 30
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Em julho de 2012, assisti a uma palestra do ilustre biólogo, filósofo e pensador construtivista chileno, Humberto Maturana, numa conferência em que nós dois éramos palestrantes. Maturana é mais conhecido por sua teoria da autopoiese. Simplificando, a autopoiese (que significa, literalmente, auto-criação) é a visão de que o mundo em que vivemos é um mundo que nós mesmos criamos.

De acordo com Maturana, toda a realidade, incluindo o fato de que as teorias científicas pretendem elucidar, é em última análise, auto-referencial e, portanto, deve levar em conta os cientistas que estão executando a elucidação. Todas as construções teóricas contêm implicitamente uma referência para a pessoa que está fazendo a teorização. E, de acordo com Maturana, é mais honesto estar ciente da auto-reflexividade de nossas teorias do que não estar. Ele é, em certo sentido, a encarnação moderna do antigo sofista Protágoras, que disse a famosa frase: “O homem é a medida de todas as coisas.”

É claro que muitas pessoas acusaram Maturana de solipsismo [a teoria que considera que o eu não pode conhecer nada além de suas próprias modificações e que o ego é a única coisa existente], mas acho que  quem fez essa crítica não entendeu o ponto principal. A importância do que Maturana está tentando transmitir pode ser melhor compreendida se entendermos sua filosofia como uma contramedida ao dogmatismo. A visão de Maturana é humilde – assim como ele mesmo se mostra mais humilde do que seria de se esperar, considerando sua fama e importância como biólogo e filósofo. Suas idéias nos levam a questionar afirmações sobre a realidade que não levam em conta a agenda ou os motivos das pessoas que estão fazendo a afirmação.

Como terapeuta, eu achei o ponto de vista radical de Maturana muito de acordo com a maneira como vejo o meu trabalho. Quando a criança ou o jovem entra no meu consultório, muitas vezes ele tem uma ou mais etiquetas de diagnóstico. Um pai vai me dizer, “o professor do meu filho acha que ele tem TDAH ou TOC” ou “o pediatra da minha filha diz que ela tem TDAH.”

Quando você pensa sobre isso, o TDAH é uma construção humana, em particular, a construção de um painel de psiquiatras, que é o autor de um manual de diagnóstico chamado o DSM4. E muitos destes palestrantes, 56% deles para ser exata, aceitaram dinheiro de empresas farmacêuticas, durante o tempo em que estavam criando os diagnósticos no manual. Aqui está um exemplo importante de como a natureza reflexiva das construções teóricas devem ser levadas em conta para serem compreendidas.

Portanto, a resposta à pergunta: “Será que o TDAH existe?” realmente depende da agenda do observador. Pessoalmente, acho que é mais útil descobrir as causas sociais subjacentes da inquietação ou distração da criança e fazer alterações específicas no ambiente social para remover os estressores. A criança ouve seus pais brigando ou discutindo o tempo todo? A criança está sendo abusada? A criança tem um professor que não é capaz de lhe dar a atenção extra que ela precisa, porque tem que lidar com uma sala de aula superlotada?

Eu não preciso construir um diagnóstico de TDAH para ajudar uma criança. Na verdade, a construção de um diagnóstico de TDAH não é útil a ninguém, porque a única maneira de tratá-la é por medicamentos estimulantes, que podem, a longo prazo, ser prejudiciais para o desenvolvimento do cérebro da criança ou a predispor a se tornar um viciado em drogas quando se tornar um jovem adulto. Além disso, a construção do diagnóstico tende a obscurecer a causa da angústia da criança. O diagnóstico não me ajuda a descobrir o que eu preciso fazer para ajudar as crianças a superarem seus problemas. A construção de um diagnóstico, no entanto, é muito útil para as empresas farmacêuticas, que só se interessam pelas drogas, e também para os autores do DSM, que dependem de empresas farmacêuticas para financiarem suas pesquisas e lhes proporcionar férias caprichadas.

Partindo disso, podemos ver o poder da teoria construtivista de Maturana como um antídoto para afirmações dogmáticas sobre a realidade – em particular, do complexo psico-farmacêutico. Usando o ponto de vista construtivista de Maturana, o TDAH não existe como uma realidade objetiva, e cabe ao terapeuta individual, escolher diagnosticar o problema de um filho como TDAH ou não.