Trauma nas Organizações - (Jan Jacob) traduzido por Eliana Medina

12. 05. 29
Acessos: 2219

TRAUMA NAS ORGANIZAÇÕES

(Jan Jacob Stam - tradução de Eliana Medina*)

Introdução

Em outubro de 2009, Angwynn St. Just facilitou um workshop sobre trauma. Um ano antes, eu tive alguma experiência de superação de trauma com Peter Levine, depois de ter caído de uma montanha. Essas duas experiências me levaram à pergunta: Como é o trauma nas organizações?

Pessoas podem ser traumatizadas, mas organizações podem ser traumatizadas também? E o que é traumatizado exatamente? Um departamento pode ser traumatizado? Uma organização não tem um corpo, mas organizações podem apresentar sintomas como se fossem um corpo? Ou, talvez, é possível que exista um campo que possa ser traumatizado? Da minha área de trabalho – a perspectiva sistêmica de fenômenos em organizações –, não pude encontrar nenhum colega que já tivesse pesquisado traumas nas organizações. Isso me pareceu motivo suficiente para organizar um workshop relacionado a este tema e, estimulado por muitas perguntas, investigar isso mais a fundo.

Neste artigo, incluo também a minha experiência (em vários países) com constelações em organizações onde trauma esteve envolvido. É uma espécie de relato de algumas experiências vividas até agora. Essas experiências resultam do trabalho com constelações e observações sistêmicas. Para ser claro: as implementações dos resultados da constelação (o que você pode realmente fazer em um nível prático na organização com a informação que a constelação tem fornecido) têm sido feitas pelas próprias pessoas que levaram a questão. Enquanto escrevo este artigo, não tenho muita informação sobre essas implementações, infelizmente.

Uma questão óbvia: Como prevenir uma reação de trauma no caso de eventos radicais, tais como demissões em massa, acidentes, mudanças abruptas, falência etc., ainda é um campo aberto a ser explorado.

Trauma

Iremos seguir a definição de Anngwyn St. Just. Falamos de trauma quando:

* O sistema está tão sobrecarregado por uma experiência que não consegue retornar à sua força original e

* Existem conexões rompidas.

Se um sistema pode se recuperar depois de um evento radical, normalmente falamos de estresse ou de um período turbulento, e não de um trauma.

Um trauma é sempre sistêmico; o efeito do trauma é o rompimento de conexões: com colegas, com o próprio país, com o propósito da organização, com sua paixão, com o mundo exterior e outras partes interessadas ao redor da organização (stakeholders). Certa vez, facilitamos uma constelação em um ministério onde a questão era:

"Como restaurar uma conexão rompida após uma epidemia radical? Durante essa epidemia, milhares de animais tiveram que ser sacrificados para que o vírus não se propagasse. Após esse fato, surgiu uma profunda diferença de opinião (gap) entre o ministério e uma grande parte da sociedade (agrícola)".

Uma conexão rompida pode também ser uma ruptura no tempo. Facilitamos, certa vez, uma constelação com uma mulher que, aos 16 anos, acabou com uma lesão na medula espinhal ao cair de uma escada enquanto pintava a casa da fazenda de seus pais. Essa mulher era, excepcionalmente, completa no nível pessoal e totalmente em paz com sua vida. Durante a constelação ficou óbvio que, para ela, o tempo e o desenvolvimento pessoal tinham continuado, mas para sua família, e seus pais em particular, o tempo parou desde seu acidente. O sistema da mulher retornou e estava ainda mais forte ('a dádiva da ferida'), mas o sistema da família não retornou, ficou preso no tempo e, conseqüentemente, a conexão foi rompida.

Liberação de energia

Se um antílope é atacado por um leão, ele pode lutar ou fugir. Se nenhuma dessas opções for possível, o animal irá congelar e cair como se estivesse morto. Se o antílope sobreviver, ele irá sacudir toda a energia que não pôde liberar durante o ataque. Parece que os humanos perderam essa capacidade. O trabalho de Peter Levine visa, entre outras coisas, a liberação dessa energia do corpo. Orientar esse processo requer uma quantidade enorme de capacidades e dons artesanais. Com essa liberação de energia pode-se evitar que alguém congele de novo, ficando incapaz de agir adequadamente em uma situação similar a do evento traumático original. No meu caso, o meu corpo congelava no topo de escadas quando elas eram tão íngremes quanto a montanha da qual eu tinha caído, mas ele também congelava quando alguém atrás de mim puxava uma cadeira mesmo quando eu não tinha intenção de sentar nela.

Alguns meses depois, tive a minha primeira sessão de trauma. O resultado dessa sessão foi que minhas pernas foram conectadas ao meu corpo novamente. Após a segunda sessão de trauma, um pequeno buraco em minha memória foi preenchido novamente (o primeiro meio segundo da queda). Esse último 'vir à luz', especialmente, foi muito agradável, como se os acontecimentos, ao invés de serem interrompidos abruptamente, pudessem agora fluir novamente.

Na minha linha de trabalho com trauma em organizações, não me sinto experiente e qualificado o suficiente para trabalhar com a liberação de energia.

Sintomas de trauma

Alguns sintomas de trauma, mencionados por pessoas (líderes de organizações e/ou funcionários) durante um workshop sistêmico, são:

* Rigidez da organização quando proposta de mudança ou uma nova direção. Pode-se ver isso como reativação: a memória de um trauma anterior, normalmente armazenada subconscientemente, é acionada novamente pela mudança proposta.

* Conexões rompidas, entre, por exemplo, funcionários mais antigos e funcionários mais novos, que, apesar da boa vontade mútua, não podem trabalhar juntos novamente.

* Falta de fluxo entre diferentes divisões de uma organização ou entre a organização e o mundo exterior. É difícil existir fluxo onde há conexões rompidas.

* Também pode haver uma reação de trauma no entorno da organização. Alguém no workshop lembrou o que sentiu em Oss (uma cidade na Holanda) quando um dia as letras de ORGANON (nome da multinacional farmacêutica) foram retiradas do prédio e trocadas por outras. Você pode se perguntar como o desaparecimento de grandes marcas holandesas pode levar a reações de trauma.

* A organização ou o departamento parece estar parado no tempo. Em uma constelação organizacional – a imagem dimensional do sistema organizacional, onde departamentos, produtos, conselho de diretores e outros elementos são representados por pessoas – se vê sintomas similares.

* Quando você se lembra da imagem de um cervo travado pelos faróis dianteiros do carro, pode, às vezes, ver de relance que isso se aplica a uma parte da constelação ou à constelação como um todo.

* No workshop também ficou claro que, se os representantes sentem frio ou que ao redor deles fica frio, isso pode ser um indício muito forte de que há trauma envolvido.

* Outra pista para prestar atenção é quando grande parte das pessoas na constelação está focada no passado ao invés do futuro.

* Finalmente, às vezes os braços, mãos e/ou pernas dos representantes se movem quase inconscientemente e normalmente de forma incontrolável, como se eles estivessem lutando ou fugindo, mesmo que isso não seja possível na situação real.

Um exemplo: uma diretora, que decidiu deixar a empresa durante uma fusão, se perguntava se havia causado algum trauma com sua saída. Havia uma chance dela ser despedida ou outras razões para ela sair; então, ela saiu. Durante a constelação, a parte de baixo das pernas do representante dos funcionários ficava fazendo movimentos de caminhada, semelhante a um cavalo irrequieto.

A frase dita pela diretora que revelou a verdade e, portanto, foi útil foi: 'Eu podia ir embora, vocês não...'.

O que ajuda?

A seguir, apresento um resumo do que observamos ser útil até agora em trabalhos de constelação de trauma nas organizações. Esse resumo, naturalmente, está longe de ser completo e também não é suficientemente coerente.

'Viagem no Tempo-Espaço' para juntar novamente partes fragmentadas

Uma jornada no tempo-espaço é um formato genérico que se mostra útil. Durante um evento traumático, partes de um sistema são separadas. Isso é possível em diferentes camadas. Uma organização pode ser desconectada de diferentes partes da organização ou de grupos de funcionários, mas também partes internas de uma pessoa podem ser desconectadas.

Um exemplo de desconexão no primeiro nível é o de um ministério que foi separado da parte agrícola da sociedade. No segundo nível, vimos que um grupo de funcionários demitidos de uma construtora foi separado dos funcionários que ficaram. Os primeiros foram despedidos, pois não quiseram ou não puderam seguir a nova direção. No terceiro nível, os funcionários que permaneceram acabaram por se desconectar da sua própria experiência de trabalho, das suas habilidades e da sua paixão pelo trabalho.

O que funciona bem em uma constelação é quando o diretor atual (mesmo que tenha se juntado à organização após o evento traumático) diz para o grupo de funcionários demitidos: 'O vínculo com vocês foi rompido abruptamente', 'a visão de vocês (uma diferente da nova direção escolhida) se tornou fatal para vocês'. Especialmente a ultima frase ajudou os funcionários que ficaram a ter a coragem de novamente empenhar seu amor por esse trabalho. Esta viagem no tempo-espaço (no agora se volta ao passado) leva tempo, não pode ser apressada ou pressionada. E necessita de uma estrutura segura e um ambiente seguro no qual este processo possa ocorrer.

Recursos e aplicação de linhas de vida ('âncoras')

Às vezes é um diretor que se confronta com uma organização traumatizada. Quando ele ou ela é o cliente da constelação, é possível trabalhar diretamente com eles. Há uma distância entre ele/ela e o trauma da organização. Quando o cliente da constelação é uma vítima do evento traumático, normalmente é necessário que, antes que a jornada no tempo-espaço se inicie, sejam instaladas 'âncoras' (life-lines). Pode-se colocar o cliente em contato com recursos que estejam disponíveis para ele/ela, de modo que possam extrair forças deles em situações difíceis.

Linhas de vida podem ser feitas, por exemplo, com uma âncora no aqui e agora. Pode-se garantir que o cliente não entre demais na constelação colocando-se um filtro (uma cadeira) entre ele/ela e a constelação.

Em hipótese alguma é necessário, certamente muito indesejável, que o cliente entre no estado traumático novamente.

Um colega que acompanhou o cliente ou o facilitador da constelação pode também servir como uma 'âncora', sentando próximo ao cliente durante o processo.

Recursos

Anngwyn St. Just normalmente utiliza recursos que as pessoas já estão usando em seu corpo: jóias, roupas, símbolos. Freqüentemente eles estão conectados com acontecimentos positivos e significativos da vida da pessoa, ou são presentes do ser amado ou de uma outra pessoa importante. Junto com o cliente, o facilitador procura por tais recursos. Eles podem ser ancorados de modo que o cliente tenha acesso constante a eles durante o processo.

Vínculo com raízes

Uma pesquisa feita por Anngwyn St. Just mostra que pessoas que são mais ligadas às suas raízes são aquelas que melhor se recuperam e que ficam menos traumatizadas por um evento radical. As constelações também indicam isso. Conectar organizações com suas raízes parece criar uma grande capacidade de resiliência. Como raízes, pode-se pensar: no propósito original da organização, na necessidade social à qual o estabelecimento da empresa foi uma resposta, mas também na comunidade local onde a empresa está fixada. Um caso da gestão de um banco no México onde a resistência no Call Center parece ser um problema racial. Normalmente os que ganham menos são de origem indígena. Mas sob o tema racial está a questão: até que ponto é possível para grupos de funcionários se conectarem com suas raízes?

Você pode se perguntar quais são as conseqüências quando uma fábrica muda de uma região remota, onde foi fundada e onde se desenvolveu, para uma cidade que é mais atrativa logisticamente. O que acontece quando se desenraiza uma companhia? O que acontece quando se terceiriza a produção para um país com salários mais baixos?

Permissão de uma parte desconectada para o resto do sistema continuar

Um recém-nomeado chefe do departamento de apoio ao estudante de uma universidade técnica no México foi confrontado com um departamento que não se movia. A constelação inteira estava extremamente congelada. Muitos representantes sentiram muito frio. Quando perguntado se algo sério havia acontecido, eles subitamente se lembraram que alguns anos antes um estudante, que havia sido crítico para o sistema, havia sido baleado pela polícia no campus. Quando esse estudante foi representado na constelação, ele caiu no chão. Ele estava imóvel e rígido. A única frase dita pelo chefe de departamento que trouxe movimento novamente para o representante do estudante morto foi: 'Você foi morto'; e um pouco depois: 'a sociedade continuou... sem você'. Naquele momento, o estudante abriu os olhos. O estudante disse: 'É bom que a sociedade tenha continuado'. Com essa frase os funcionários atuais sentiram permissão para focar no futuro de novo. Eles lentamente sentiram algum calor novamente, seu sangue começou a fluir, eles voltaram a ter um pouco de cor em suas faces e, logo depois, encerramos a constelação.

Muito freqüentemente, a parte sobrevivente de um sistema se sente culpada e não se permite focar totalmente no futuro. Na literatura sobre organizações em transição, isso é conhecido como 'síndrome do sobrevivente': ao invés dos sentimentos de gratidão e motivação, esperados pela direção, os funcionários aos quais foi permitido ficar parecem perder a confiança na organização. Algumas vezes a pergunta inconsciente é: 'Sou o próximo?'.

Encontrando o primeiro trauma

A pesquisa mostra que traumas tendem a se repetir. Mesmo quando todas as pessoas que passaram pelo trauma original deixaram a organização e nem mesmo há alguém que conscientemente se lembre do ocorrido. Notavelmente, traumas parecem ter a tendência de se repetir no aniversário de traumas antigos. Anngwyn St. Just e a historiadora Anne Ancelin Schützenberger realizaram uma extensa pesquisa nesse assunto. Com a construtora, mencionada, anteriormente, algumas vezes como um exemplo, fizemos uma segunda constelação. Com a primeira constelação, nós tínhamos reconhecido e integrado as partes que haviam sido cortadas durante uma mudança de direção ocorrida dois anos antes.

O diretor queria explorar como as ligações com a comunidade, a política e outras partes da sociedade poderiam ser re-conectadas. Nesta constelação, a corporação não foi mais representada por vários representantes da direção, dos departamentos e dos funcionários, mas por um representante para toda a organização. Esse representante ainda mostrava sinais de trauma e disse: 'A palavra 'guerra' fica brotando em minha cabeça'. E, de repente, o diretor (cliente) disse: 'A organização tem 94 anos. Há rumores de que, durante a guerra, um bairro foi bombardeado; uma parte do nosso parque habitacional era parte desse bairro'. Essa informação repercutiu imediatamente entre os representantes na constelação. Após reconhecer as perdas e as possíveis vítimas, a corporação foi capaz de se re-conectar com a comunidade local e sua política.

Reconhecimento da estratégia de sobrevivência

Uma consultora conta sobre os sentimentos de culpa em um departamento. Ela explica o quão culpados os funcionários se sentiram por lutarem e cuidarem de si mesmos, e não mais cuidarem uns dos outros durante um período de cortes severos. "Mas, fazendo isso, o departamento foi capaz de sobreviver melhor como um todo do que se eles cuidassem um do outro", foi a sua visão.

Freqüentemente, mesmo anos após o trauma, se é confrontado com os antigos mecanismos de sobrevivência -> separar de, lutar ou seja qual for. Naquele momento, essa era a única e, portanto, a melhor opção. A estratégia de sobrevivência está ok.

Dando opções

Em um evento traumático não há opções. Parece ser útil dar opções ao cliente. Continuamos, paramos ou fazemos outra coisa? O que você quer olhar primeiro, e depois disso?

Terminando movimentos

A razão de um sistema acabar 'congelado' é porque ele não consegue terminar os movimentos que queria fazer naquele momento. Se você pisar no acelerador e no freio ao mesmo tempo, um carro não se moverá, mas, no interior, uma quantidade de energia incrível é gerada e não consegue encontrar uma saída.

Nas constelações é útil incentivar a exploração do que braços se movendo fariam se pudessem terminar o movimento. Olhando para o sistema como um todo, pode-se procurar: qual movimento interno existe nesse sistema que quer chegar ao seu destino... Onde ele para? A estagnação é resposta para o que? Às vezes pode-se ver que, quando um representante em uma constelação tem o começo de uma liberação de energia, ela repercute no corpo do cliente que está assistindo ao lado, mesmo que ele/ela nem sempre entenda a ligação direta.

Mas um cliente (titular da questão) está sempre conectado de duas maneiras à organização a qual a questão está ligada.

A primeira é: como alguém com uma função na organização, um funcionário, um diretor, ou qualquer função.

Em segundo lugar, o titular da questão é também parte de um sistema e tem a informação holográfica armazenada sobre o sistema como um todo, mesmo antes de sua época.

As constelações mostram isso repetidas vezes. Em alguns casos, quando um trauma começou a ser liberado em uma constelação, o corpo do cliente também respondeu. Pode ser útil estar atento a isso e perguntar regularmente ao cliente sobre sensações em seu corpo e, possivelmente, deixando-o entrar em ressonância com o que está acontecendo na constelação. Parece ser possível que o corpo de alguém que entrou na organização após um evento traumático ainda aja como um 'corpo de ressonância' em intervenções posteriores.

Memória e realidade

Mencionamos anteriormente que, de acordo com a experiência dos especialistas em trauma, não é desejável voltar ao trauma em si. Um bom lugar para começar é lá onde o sistema percebe que sobreviveu ao trauma. Do ponto em que alguém pode entrar em contato com o trauma sem ter que entrar dentro do trauma novamente. É comum que o jeito como o trauma foi guardado na memória não seja exatamente o mesmo jeito como os acontecimentos reais aconteceram. Normalmente há deslocamentos no tempo e no espaço. Isso se origina de uma compilação de memórias que se juntam em um cluster, mas, de fato, consistem de partes de vários eventos. Trabalha-se com o que vem à memória. Isso é suficiente.

Encarando o evento

Defrontar-se com o acontecimento é algo diferente de encarar aquelas vítimas e perpetradores possíveis ou envolvidos (em um trauma causado por pessoas). Quando alguém realmente olha para o evento nos olhos (em uma constelação é fácil colocar um representante para o evento; isso também dificulta que se entre dentro dele), haverá um momento em que ele se torna real; nós não podemos mudar o evento em qualquer medida, modo ou grau. Eu não posso mudar o acontecimento ou desfazê-lo retroativamente.

O evento é um fato histórico. Até certo ponto, ele modelou quem eu sou agora. E: O mundo se moveu para frente. O mundo de hoje é como é. Sem este evento, ele não seria o mesmo mundo como é hoje.

Tornando-se maior do que o evento que aconteceu com você

Em uma constelação, fui o representante de um pai de uma família que tinha sido traumatizado pela guerra. A facilitadora, Anngwyn, colocou alguém representando a guerra. E, mais tarde, deu a frase: 'A guerra é parte da nossa família'. Instantaneamente duas coisas aconteceram ao mesmo tempo dentro de mim, como um representante: parei de lutar e senti um poder dentro de mim que eu poderia lidar com o mundo outra vez, e reconheci a guerra como uma parte de mim.

Várias vezes vimos que o cliente tomou tanto o evento como uma de suas partes internas (da organização ou de si mesmo). Desenvolver-se mais que o evento, e integrar o evento no sistema, gera muita resiliência para possíveis situações futuras e reativações do trauma original.

Não vou esquecer o momento em que o diretor de uma instituição de saúde mental, durante uma conferência, apresentou-se como: 'Eu sou o diretor da organização de Jolanda Venema'. Imediatamente um suspiro de alívio atravessou a sala.

(Jolanda Venema é uma mulher deficiente mental que foi seriamente maltratada na instituição em que viveu. Seus pais foram a público com algumas fotos dela amarrada, nua, a uma parede dentro da instituição).

Para se levar em consideração: Construindo sua profissão sobre um evento traumático

Um homem, quase aposentado, contou uma vez que ele, como um estudante de farmácia, sempre tirava notas excepcionais. Exceto pela vez em que tirou um 4 em um exame, logo após seu pai ter morrido. Nenhum de seus professores perguntou-lhe o que tinha acontecido ou por que ele acabou com um 4. Agora, de repente, ele compreendeu porque havia sido um orientador de alunos por 30 anos. Note bem: na mesma universidade.

Freqüentemente acontece que pessoas, durante ou depois de um evento traumático, prometem que ninguém nunca vai ter que passar pela mesma experiência. Uma jovem professora que era intimidada na escola, algum dia prometeu que isso não iria acontecer mais com outras crianças. Talvez isso também seja, no sentido de desenvolvimento, maior que o evento. É a dádiva do trauma.

Bibliografia

ST. JUST, Anngwyn. Relative balance in an unstable world. A search for new models for Trauma Education and Recovery. Carl‐Auer Verlag Heidelberg, 2006 (versão em Inglês)

______________. Equilibrio relativo en un mundo inestable. Una investigación sobre Educación de Traumas y Recuperación. Buenos Aires: Alma Lepik, 2007 (versão em Espanhol)

______________. A Question of Balance. A Systemic Approach to Understanding and Resolving Trauma. Published independently, 2008 (versão em Inglês)

______________. Trauma, una cuestión de equilíbrio - Un abordaje sistémico para la comprensión y resolución. Buenos Aires: Alma Lepik, 2011 (versão em Espanhol)

LEVINE, Peter A. O Despertar do Tigre - Curando o Trauma. São Paulo: Summus Editorial, 2006

SCHÜTZENBERGER, Anne Ancelin. The Ancestor Syndrome: Transgenerational Psychotherapy and the Hidden Links in the Family Tree. London: Routledge, 1998

___________________________. Meus Antepassados - Vinculos Transgeracionais, Segredos de Família, .... São Paulo: Paulus, 1997

Nota do tradutor: Os livros da Anngwyn St. Just estão disponíveis para compra, em Inglês e Espanhol, em: ou .

Fevereiro de 2010

Jan Jacob Stam

Minhas notas:

Muitas pessoas são traumatizadas.

Por exemplo: A atitude cínica de uma agência holandesa de empregos em relação à organização e em relação à idéia de 'clientes'. Cínico é o equivalente a um fechamento do coração. Quais eram as condições para que fosse necessário esse fechamento? Queria-se sobreviver e, para isso, o coração foi fechado. Isso pode ser reativado repetidas vezes em situações similares.

Como um facilitador, é importante reconhecer reativações de traumas antigos e aceitá-los. E também dizer ao cliente: "você pode ficar bravo comigo, tudo bem" e ao mesmo tempo "esse é o seu trauma".

(*) A tradução para o português foi feita por Eliana Medina, com o apoio de Caroline Pissolato e Charles Hefner, a partir da tradução feita do holandês para o inglês por Marieke Kramer.

Artigos Relacionados:

Os princípios da Física Quântica aplicados nas Constelações - (Vera Bassoi)

Nossa Criança Interior - (Poesia por Vera Bassoi)

Ausência e Presença (parábola por Bert Hellinger)

Trauma in Organizations (Jan Jacob Stam)

Trazendo à Luz as Raízes das Organizações (Jan Jacob Stam)