Depoimento de Marianne Franke-Gricksch no seu livro: “Você é um de nós” – uma nova perspectiva educacional...

12. 08. 27
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Como muitos outros professores, frequentemente me desesperava em minhas tarefas. Eu me sentia cada vez mais limitada pelas condições externas: as transformações dos alunos em direção a comportamentos consumistas e o mundo da televisão; os tipos de comportamentos ligados ao meio ambiente de onde provinham os alunos; a crescente imposição daquilo que deveria fazer parte do currículo escolar; a insistência na transmissão de conteúdo, deixando pouco tempo para o aprendizado prático; as diversas imposições da secretaria de educação (...). Nesse processo solitário em uma classe, muitas vezes, a minha auto-avaliação com relação a minhas próprias qualidades pedagógicas e de ser humano tendia para o negativo. Após 10 anos de trabalho estava exausta.

As Constelações familiares me conduziram a uma nova compreensão dos alunos. Vi como estão inseridos em suas famílias e sua lealdade a elas. Mas também reconheci as forças que empregavam constantemente para ligar sua vida familiar à escolar e percebi que essas forças poderiam ser frutíferas. Na verdade, isso acontece quando nós, professores, abrimos nosso coração às famílias, permitindo-lhes entrar em nossas salas de aula como uma presença invisível e permanente.

Gradualmente consegui ver nas crianças os representantes de suas famílias com suas leis, suas dinâmicas próprias e suas tarefas particulares. Os alunos me mostravam constantemente que estavam comprometidos de um modo profundo com suas famílias e davam inabalável prioridade a essas dinâmicas.

As crianças conseguem suportar mais facilmente a insegurança que advém desse novo campo – escola – assim como através do aprendizado em si, quando são reconhecidas por tudo o que trazem consigo. Então a escola não é uma melhor alternativa do que a vida em casa, mas um enriquecimento do que já existe. E também o respeito que nós, professores temos pela criança não é nada mais que o respeito por sua família de origem e isso também inclui o respeito pelo destino da família toda, não importando se, de nosso ponto de visto, isso atua de uma forma que fomenta ou obstrui seu desenvolvimento e sua disposição para aprender.

A melhor coisa que podemos presentear a um aluno é reconhecer seu destino tal como ele é, e isso requer de nós, professores, uma grande dose de disciplina: renunciar a querer ajudar a superar as limitações de sua família de origem.

Nós somos apenas os professores – as crianças permanecem conectadas a seus próprios destinos e famílias. Uma mudança em situações difíceis acontece quando a própria criança consegue respeitar seu próprio destino. Contudo, na maioria dos casos, permanecem emaranhadas no amor: externamente rejeitam aquilo que causa seu sofrimento e o que (inconscientemente) amam de forma incondicional.

Nas salas de aula são representadas leis familiares que são seguidas por alunos e adultos, e o simples respeito pelas famílias pode ser útil para o crescimento de um campo social e curador na classe.

O pensamento sistêmico inclui o conhecimento de que o aluno e os professores estão conectados a suas famílias de origem (e às idéias e regras desse sistema). Ser parte do sistema escola significa que a escola também faz parte de todos os sistemas familiares que estão conectados a ela ou, usando imagens, que as famílias de origem de todos os alunos e professores representam subsistemas de uma escola.

Dessa forma, as famílias atuam na escola e a escola nas famílias (..). Assim, não podemos distinguir completamente onde o "sistema família" termina e o "sistema escola" começa.

Segundo nossa noção tradicional, que nos deixa acreditar que podemos perceber o mundo do modo como ele é, consideramos família e escola como duas unidades claramente delineadas, cada uma com suas próprias regras, necessidades e tarefas. Hoje, contudo, sabemos que nenhum sistema pode ser mantido completamente independente de outro sistema e que a escola também não pode ser mantida afastada de tais fatores como televisão ou a cultura jovem existente.
Nossos alunos são os arquitetos de nosso campo e de seu mundo futuro. Assim sendo – mais do que qualquer outro campo de consciência – a escola está criando a matriz do futuro que se está formando.